13º Capítulo - Uma Força Inexplicável


Jaden revirou os olhos ao ouvir aquele disparate vindo de Nathan. Porém, não conseguia esconder um certo alívio que lhe afluía no seu íntimo, por o colega o ter perdoado. Ele nunca fora rancoroso, mas Jaden não deixava de ter algum receio.
Dirigiu-se para o pátio interior da Universidade, onde se encontrava um aglomerado de alunos. Aquele mar de gente causou-lhe uma pequena inquietação dentro de si, fazendo-o procurar uma zona que não fosse tão sufocante. Ao longe, avistou Thomas, que se encontrava encostado a um poste, com a mala entre as pernas a ler uma revista de motas e carros. Jaden sentou-se num banco onde apenas se encontrava uma mala esquecida, e arregaçou a manga da sua camisola. A marca encontrava-se mais vermelha, sobressaindo-se inúmeros e finos vasos sanguíneos, assemelhando-se a cabelos colados ao braço.
Olhou para o céu. Este não parecia decidir-se entre um dia chuvoso ou um dia solarengo, tais eram as nuvens cinzento-escuro que faziam o sol aparecer e desaparecer.
E nesse momento, ouviu alguém a aproximar-se, rindo-se às gargalhadas e olhando para trás numerosas vezes. O seu cabelo meio oleoso eriçado e a sua expressão de gozo denotavam nitidamente que queria alguma coisa de Jaden. Aproximou-se e pegou na mala que havia esquecido no banco:
- Olá para ti também! – vociferou, colocando a mala no ombro.
- Desculpa?
- Eu desculpo! Está descansado. Não é todos os dias que encontras mais do que o trapo velho não é, “Jey”?

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- Desampara-me a loja… - disse Jaden, praticamente indiferente àquela provocação.
O rapaz que o provocava era-lhe conhecido. Sempre que o via arranjava desculpas para o tirar do sério, atirando-lhe à cara que era mais rico que ele, coisa que nunca o afetara… até àquele momento.
O rapaz semicerrou os olhos e respirou profundamente. Olhou-o fixamente e aproximou-se ainda mais.
- Tu por acaso sabes quem eu sou? – perguntou, picando o seu peito com o dedo indicador – Sou o filho do patrão da empresa onde trabalha a tua querida mamã! Sabes que ela pode ir para o olho da rua tão depressa como chegou ao cargo que exerce, não sabes?
Jaden levantou-se, agora sentindo a cólera a percorrer-lhe o corpo. Mas tentou controlar-se, respirando fundo e dizendo, calmamente:
- Desde quando é que tu tens poderes para despedir a minha mãe? Que eu saiba lá por seres filho de um gerente comercial não tens o direito de tomar as decisões por ele!
- Ah pensas que isto é apenas uma ameaça? – soltou um riso de escárnio que fez Jaden sentir-se ainda mais irritado – Não, meu caro. Era um aviso!
- Mas o que é que tu queres de mim? – inquiriu Jaden, levantando o tom de voz, lembrando-se do dia anterior com Nathan – Eu dei-te confianças para vires aqui falar da minha mãe? Ela não é para aqui chamada, se tu queres resolver alguma coisa, resolve aqui e agora!

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- OK. Por mim…
E dito aquilo, o rapaz soltou a sua mala e deu um murro na cara de Jaden. Este foi ligeiramente impulsionado para trás, sentindo a sua bochecha dorida pela pancada que sofrera. Mas voltou a erguer-se, e tentou agredi-lo também, mas sem sucesso. O rapaz agarrara-lhe a mão e torcera-lhe o pulso antes de Jaden sequer chegar a tocar-lhe. Agora, o seu braço pulsava de dor, levando-o a pensar que estava partido.
Mas subitamente, um calor percorreu o seu peito, como uma chama. O coração começou a bater a mil e os seus braços ficaram hirtos, assim como o resto do corpo. Uma cólera incontrolável trepou-lhe pela alma, levando-o a levantar-se e a agredir o rapaz na barriga. Este curvara-se de dor, emitindo um grito sonoro que apenas fez com que Jaden tivesse ainda mais vontade de lhe provocar sofrimento. Estava fora de si.


Nathan corria tanto quanto as suas pernas o permitiam. Os pés queimavam, doridos, sob a sola de borracha dos ténis que embatiam com força no pavimento. Sentiu a ponta do nariz húmido; de imediato, a t-shirt colou-se às costas e a testa embebeu-se em suor. O coração palpitava-lhe descontroladamente e a respiração, ofegante, suplicava um descanso. Mas Nathan não podia. Controlou a mente para um último esforço; necessitava de encontrar Daisy. Desconhecia o que Jaden já teria feito ao pobre rapaz. Se calhar, o desgraçado contorcia-se de dores, a sangrar por todo o corpo, ou talvez Jaden já o teria morto por espancamento, ou com recurso a armas brancas, ao estilo das suas séries favoritas… Embora Nathan estivesse claramente a vaguear por entre o seu subconsciente, existiam fortes probabilidades da situação descontrolar-se. É que Jaden estava fora de si. Os seus olhos amendoados, outrora tão vivos, mostravam-se agora cegos de irritação. O seu corpo parecia agir por vontade própria, demonstrando a raiva que estava a sentir.
Num pacato banco de jardim, estava Daisy. Conversava tranquilamente com mais duas raparigas, uma ruiva que parecia que tinha comido algo estragado e uma rapariga caloira. Ambas miraram Nathan, exasperadas, quando este se aproximou.
- Daisy… tu tens… que vir comigo… JÁ! – pediu Nathan, sem fôlego.
As outras duas alunas observaram-no como se ele tivesse acabado de solicitar que fossem à lua.
- Porquê? – perguntou Daisy, despreocupadamente.
- É o Jaden… ele está à porrada com outro aluno!


A multidão de alunos cercava os dois rapazes, que se encontravam num conflito incansável. Jaden quase que nem tinha consciência dos seus movimentos. Apenas se desviava dos ataques do colega e sentia uma necessidade incontrolável de lhe provocar dor e sofrimento, coisa de estranhar vindo de si. Mas enquanto tentava atingi-lo, de repente, um espectro de cores tapou a sua visão. De um momento para o outro, não conseguia ver tão nitidamente, e os seus movimentos pareciam ainda mais mecânicos.

“Não faz sentido…”
“Olha para ele! Ele não é o Tr…”

Vozes ecoaram pelo seu cérebro adentro, fazendo-o parar por alguns segundos. Mas quando deu por si, encontrava-se espalmado contra uma árvore, com a mão ossuda do rapaz em volta do seu pescoço. Este apertava o pescoço de Jaden cada vez com mais força, fixando-o nos seus olhos azuis-cinza. A força com que lhe estreitava a garganta era o suficiente para sufocar qualquer um, mas Jaden não sentia sequer necessidade de ar. Em vez disso, continuava a respirar convulsivamente devido ao cansaço. Sentia unicamente a mão do colega, que entretanto cuspira para o chão como ato de desprezo.
- Tu achas mesmo… - Jaden respirou fundo - …que me consegues sufocar? – e com isto, soltou um riso de escárnio parecido com o do rapaz que denotava agora uma expressão horrorizada.
- Mas o que é que… - gaguejou, os olhos arregalados tal era a sua perplexidade ao ver que Jaden nem sequer se incomodava. Este olhou em redor, reparando na multidão de alunos que observavam a situação. Uns riam-se, outros tiravam fotografias com o telemóvel, porém duas pessoas no meio do aglomerado mostravam-se quase chocadas. Daisy e Nathan olhavam Jaden com uma expressão preocupada. O rapaz de cabelos ruivos embatia a palma da sua mão contra o punho, como gesto de querer também lutar.
E quando Jaden voltou a olhar para o rapaz, uma força quase elétrica percorreu-lhe os músculos dos braços, provocando-lhe um ligeiro ardor nestes.

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Respirou fundo novamente, e soltou um grito de raiva que ecoou por todo o pátio. Os seus braços perderam o controlo, e empurraram o peito do colega com uma força inexplicável, fazendo com que este fosse projetado para uma distância que nem Jaden conseguiu calcular.

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Mas o que era certo, era que o rapaz encontrava-se agora inconsciente, a jazer contra uma parede a longos metros de distância da árvore onde Jaden se encontrava.
A multidão em volta sobressaltou-se, olhando para o jovem que se encontrava estendido, aparentemente inconsciente.

12º Capítulo - Thomas


A relva húmida estalejava sob os seus ténis envelhecidos, enquanto se encaminhava para o lado oposto do campo, a fim de ver quem é que se encontrava ali. O vulto também parecia estar a dirigir-se até ele… ou talvez não. Tudo aquilo parecia não passar de uma simples e mera ilusão, como se estivesse num sonho que desejava nunca acordar.



Os holofotes apagaram-se no momento em que se encontrava apenas a escassos metros de distância do vulto. Este parara no momento em que a escuridão se intensificou.
- Quem está aí? – perguntou Jaden, franzindo o sobrolho.
E nesse momento, o vulto avançou mais alguns passos até se conseguir ver quem realmente era. O seu cabelo loiro e liso, a sua cara magra e os seus olhos semicerrados fizeram Jaden estremecer ligeiramente. Um arrepio percorreu-lhe a espinha e pela primeira vez sentiu receio de estar tão perto de uma pessoa.



- Olá! – a sua voz não se assemelhava, de maneira alguma, ao seu visual, nem o seu sorriso simpático e, de certo modo, agradável.
Jaden permaneceu imóvel, a olhar o ‘rapaz estranho’ como se fosse uma simples estátua. Foi então que reagiu e respondeu:
- Quem és tu?
- Ah! Desculpa. Eu sou o Thomas, vejo-te na universidade muitas vezes!



- Pois… imagino que me tenhas visto nitidamente.
- Desculpa? – inquiriu o rapaz, com uma expressão confusa, mas ao mesmo tempo simpática.
- Oh, nada. Apenas fizeste um amigo meu pensar as coisas piores sobre ti.
A voz de Jaden saia-lhe quase que mecanicamente, de uma forma rigorosa e antipática. Mas o rapaz não parecia incomodado com isso, continuando a esboçar um sorriso que começava a tornar-se um pouco incomodativo.
- Ah! Pois, hum… desculpa! Eu tenho este velho – e mau – hábito de observar as pessoas de longe. Talvez seja porque tenho um pouco de receio de me aproximar delas!
Jaden sorriu ligeiramente, não deixando de fitar os seus olhos que, incrivelmente, permaneciam com a mesma expressão, apontando para o infinito. Olhou em redor, reparando que o sol já se encontrava um pouco mais elevado, iluminando o campo com uma luz alaranjada, e que a estrada que passava mesmo ali ao lado já se encontrava com um pouco mais de movimento. Esfregou o seu braço esquerdo, evitando olhar Thomas nos olhos. Talvez estivesse a seguir inconscientemente o conselho de Nathan?
Nesse instante, Thomas deixou de sorrir, voltando à sua expressão apática e ausente, fixando o braço esquerdo de Jaden de uma forma que o desacomodara imenso.
- Está tudo… bem? – perguntou Jaden.
- Sim… tudo ótimo! – respondeu Thomas avidamente, voltando a esboçar um sorriso simpático na sua cara pálida – Bem, é melhor irmos andando, não achas?



Jaden assentiu e começou a andar num passo acelerado, ultrapassando Thomas. Por uma fração de segundo, olhou para trás. O rapaz já não sorria de novo. Em vez disso, olhava-o incansavelmente com o olhar semicerrado e com uma expressão de indiferença. Não obstante, mal reparou que Jaden olhava para ele, esboçou novamente um sorriso agradável.
Mal chegou à universidade preocupou-se em procurar Nathan. O peso que sentia na sua consciência era mais forte do que qualquer coisa, e estava disposto a pedir-lhe desculpa. E para sua satisfação, o rapaz de cabelos ruivos flamejantes encontrava-se sentado no chão, encostado a uma parede, a ler um livro, rodeado pela multidão de alunos que caminhavam pelo corredor para trás e para diante.
- Nathan?
Mal ouviu a sua voz, fechou rapidamente o livro e levantou-se, com os olhos extremamente arregalados mas com um sorriso de alívio na cara.
- O-olá!
- Olha eu queria pedir-te desculpa… por causa de ontem. Não sei o que se passou comigo fiquei irritado de repente.



- Por minha causa, não foi?
- Não! Não, nada disso! Eu não sei… mas por tua causa não foi, acredita! Eu estava tão calmo naquela altura, e de repente… não sei… senti-me tão irritado que te levantei a voz. Então… desculpas-me?
O sorriso ligeiro de Nathan transformou-se num de extrema satisfação, levando-o a abraçar Jaden bruscamente.
- Claro que desculpo!
- Ainda bem. Fiquei um pouco esquisito quando te tratei assim.



- Chama-se a isso peso na consciência! – exclamou Nathan, rindo-se genuinamente, enquanto pegava no seu casaco e no seu livro – Bem, agora, se me dás licença, vou beber um iogurte!
- Mas tu não eras alérgico á lactose?
- Sim, sou! Mas em ocasiões como estas temos de brindar com o melhor não achas?
E dirigiu-se para o bar, com um sorriso na cara e com o seu andar tipicamente desajeitado.

11º Capítulo - Fogo Interior


- A sério Nathan, tu devias superar esse teu problema com aquele rapaz!
Jaden voltou a colocar o livro de Análise Matemática numa estante perto da mesa onde tinham estado e saiu rapidamente da biblioteca, com Nathan atrás de si, num passo atropelado e inábil.
- Mas será que tu viste o que eu vi? Aquele… pronto, tu sabes… estava a olhar-te como se fosses uma miúda gira! Tirando a parte de ele não estar babado ou coisa assim…
Jaden franziu o sobrolho e olhou de soslaio por cima do ombro, para se certificar que o rapaz não vinha atrás de si, pois, embora o negasse, sentia receio que ele quisesse alguma coisa de si.
- Se eu fosse a ti não o olhava nos olhos! Se evitares o contacto visual….
Foi então que sentiu um fogo a eclodir dentro de si, que o fez levantar o tom da sua voz e parar no meio do corredor, fitando Nathan com os olhos semicerrados e com o rosto vermelho.
- MAS TU ÉS CAPAZ DE TE CALAR? Nunca te disseram que tu falas demais? Hem?


- Desculpa eu…
- Vou-me embora…
Jaden deixou Nathan estupefacto no meio do corredor e saiu de rompante pela porta da entrada. Ia ter mais aulas mas não tinha a mínima paciência para ficar fechado numa sala de aula durante mais duas horas. Por momentos estranhou aquela irritação repentina. Achara-se calmo antes de sair da biblioteca, por isso não conseguira arranjar um motivo para se sentir assim. Mas a sua cólera era mais forte do que tudo, fazendo-o andar bruscamente pelas ruas, em direção a casa. O sangue afluía-lhe à cabeça, e mantinha os punhos cerrados. Respirava descompassadamente, enquanto dava passos largos pela calçada da cidade, ignorando os carros que eram obrigados a travar repentinamente por sua causa.


Por outro lado, Nathan, depois de ter sido deparado com aquela mudança de humor do colega, permaneceu no mesmo sítio onde tinha parado, com uma expressão ausente a olhar para as pessoas que iam saindo das salas. Vagueou pelo corredor encaminhando-se para o bar, onde se encontrava Daisy e estudar numa mesa longe da confusão. Por momentos os seus olhos castanhos como amêndoas arregalaram-se ao vê-la, e andou vagarosa e desajeitadamente na sua direção.
- Eu sou tão estúpido! Tão estúpido! – repetiu, enquanto se sentava em frente de Daisy e entrelaçava os dedos nos seus cabelos ruivos.


- O que se passa? – inquiriu Daisy, arqueando as sobrancelhas.
- O Jaden irritou-se comigo!
A sua expressão triste assemelhava-se á de uma criança desesperada por um doce, tal era o seu olhar brilhante de lágrimas.
- Mas porquê?
- Se queres que te diga, nem me lembro. Acho que congelei. Eu comecei a comentar os comportamentos estranhos de um rapaz estranho, e comparei o seu olhar compulsivo a um de um homem que olha para uma mulher gira… não parece nada de mais, mas foi o suficiente para eu perder um amigo.
- Ele era teu amigo? – perguntou Daisy, com desdém, mas ao reparar no olhar desesperado de Nathan precipitou-se a dizer. – Desculpa! Realmente não parece dele irritar-se assim. Ele sempre foi tão calmo… teve sempre sangue frio com as coisas, não percebo. Tens a certeza que foi apenas isso que disseste?


- Juro pela alma da minha avozinha!
- Vais ver que amanhã já vai estar tudo bem! – apressou-se Daisy a dizer, esboçando um sorriso doce enquanto fechava o seu dossier.




Na manhã seguinte, Jaden levantou-se mais cedo do que o habitual. O sol ainda mal espreitava por detrás dos montes gelados de Coast City, e a casa permanecia num silêncio tenebroso, como uma sala à prova de som. Ao contrário de todas as manhãs anteriores, em que acordava faminto, naquele dia o seu estômago parecia retorcer-se tal era o nó que o suturava por completo.
Vestiu-se e saiu de casa calmamente. O ar da manhã que ainda cobria as ruas era frio e profundo, proporcionando a Jaden uma estranha sensação de tranquilidade. Porém, a sua cabeça permanecia num autêntico turbilhão de pensamentos sobre o dia anterior. Estava ciente que não fora, na realidade, Nathan que o irritara naquela altura, mas sim uma raiva inexplicável que irrompeu de dentro de si. Não conseguia arranjar uma razão para a sua origem.
Caminhava pelas ruas da cidade, que se achavam completamente vazias. Os reclames luminosos de bares e lojas permaneciam acesos, iluminando a calçada com um espectro de cores. Uma suave brisa gelada fustigou-lhe o rosto, causando-lhe um arrepio que lhe trepou pelas entranhas.
E quando deu por si estava junto de um campo de basebol meio abandonado, com vista para o rio que dividia a cidade. A relva fresca e húmida, a sugerir uma bela tarde de verão, contrastava com a densa neblina e a temperatura baixa que fazia lembrar uma típica manhã de inverno. O grande holofote do campo de basebol mantinha-se aceso, devido à pouca luminosidade. O sol espreitava muito timidamente, emitindo uma luz ténue e apagada.


Jaden só via um palmo à frente dos seus olhos, devido ao carregado nevoeiro, e foi quase às apalpadelas que se encaminhou para as bancadas. Estas encontravam-se cobertas por uma fina camada de gelo, que derretia lentamente e escorria pelas cadeiras abaixo, pigmentando o cimento do chão de um cinzento mais escuro. Jaden friccionou as mãos, soprando-lhes energeticamente com esperança que o ar quente que saía da sua boca as aquecesse. O corpo tremia-lhe descompassadamente dentro do blusão e das calças de ganga.
Subitamente, para além do nevoeiro que começava a atenuar, viu uma figura humana caminhar em círculos contínuos. Desconfiando que era do frio, esfregou com energia os olhos. Mas a figura, que Jaden via agora ser um rapaz da sua idade, continuava ali. Atordoado, levantou-se do assento onde se acomodara. Pensava que, àquela hora e com aquele nevoeiro, ninguém seria suficientemente idiota para sair de casa e ir para um campo de basebol. Só ele. “Talvez queira regar o campo”, pensou Jaden, descendo as escadas com cautela devido a humidade. “Ou se calhar quer pedir alguma informação”. Fosse quem fosse, dirigia-se claramente a ele com um ar interessado, de quem não conhecia mas queria conhecer.

10º Capítulo - Um Furo no Horário


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Todos os alunos da Universidade, em geral, iam-se inquietando com a chegada da primeira temporada de exames. A notícia do homicídio na cidade estava a ser deixada para trás gradualmente, enquanto os temas de conversa nos corredores iam mudando rapidamente.
Jaden ainda se sentia bastante irritado com os seus pais pela noite anterior. Sentira-se incapaz de acompanhá-los nas suas decisões como um rapaz de 20 anos e a sua cólera aumentava ainda mais quando olhava para o calendário de exames e via que o primeiro era já dali a três dias. Tornara-se impossível conseguir gerir os seus horários, e cada tempo livre que se revelava no meio do seu calendário parecia não durar mais do que vinte minutos.
Mas para sua satisfação, a segunda aula do dia tinha sido cancelada, pois o professor tivera de comparecer a uma reunião que parecia ser de extrema importância. Por isso, mal soube desse furo de horário, dirigiu-se á biblioteca para começar a estudar para o primeiro exame.
Mal entrou, uma sensação de sossego percorreu o seu corpo, sentindo o silêncio constante que apenas deixava transpor o barulho das páginas a serem folheadas, e os passos lentos e calmos dos estudantes que caminhavam por entre as estantes recheadas de livros de todas as espécies. Jaden encaminhou-se, num passo igualmente vagaroso, para uma mesa livre que repousava por entre duas enormes estantes da secção de História. Não parecia ser a área adequada para estudar para um exame de Análise Matemática, mas era o lugar que aparentava estar mais isolado e vazio, coisa que Jaden já não apreciava há bastante tempo. A paz que lhe fluía na mente quando se deparava com aquele silêncio e aquela solidão era quase indescritível. Mas esse sossego não durou muito tempo:

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- Hei Jaden! Estás aqui? – num passo descontraído e ímpar, um rapaz, que empunhava um enorme livro que se assemelhava a uma enciclopédia, sem contar com as características intimamente ligadas a um manuscrito antiquíssimo, encaminhava-se em direção à sua mesa.
- Nathan? – sussurrou Jaden, semicerrando os seus olhos azuis-cinza. – O que fazes aqui?
- Furo de horário! – exclamou Nathan, deixando cair pesadamente o seu livro na mesa, causando um estrondo enorme que ecoou por toda a biblioteca, fazendo a funcionária levantar a cabeça e olhar em volta – E logo na minha aula preferida! Filosofia! Meu Deus… e tu? Não devias estar na aula, ou assim?
- Também não tive aula.
Nathan denotou uma expressão um tanto ou quando chocada, mas ao mesmo tempo satisfeita.
- QUE COINCIDÊNCIA! JÁ VISTE?

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- Shhhh! Fala baixo! – murmurou Jaden, num tom quase inaudível, baixando a cabeça para se certificar que ninguém o via.
- Ah, certo. Isto é uma biblioteca e não devemos fazer barulho para que os marrões não acordem do seu transe induzido pelos ‘livrões’ que se vêem agarrados há séculos.
- Ainda bem que sabes! Não quero dar nas vistas…
Nathan encolheu os ombros e abriu o seu espesso livro, folheando as primeiras páginas com o queixo apoiado numa mão, com uma cara aborrecida.
- “A Filosofia é o estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem…” bla bla bla… - Nathan lia em voz alta, como se estivesse a ler uma história para crianças. – “…distingue a Mitologia da Religião…”
- Mas tu és capaz de ler em voz baixa? – inquiriu Jaden, olhando o colega nos olhos.

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- Desculpa… entusiasmo-me a ler esta oitava maravilha do mundo…
Jaden ignorou o comentário de Nathan, e continuou a tirar apontamentos do seu livro. Mas embora tentasse, a sua concentração não parecia durar pouco mais de dez minutos.
Por alguns instantes, a fim de aliviar a tensão dos ombros, encostou-se na cadeira e olhou para o companheiro, que também já não se encontrava a ler o seu livro. Em vez disso, olhava para a frente, com os seus olhos castanhos brilhantes muito arregalados, e o cabelo ruivo flamejante mais despenteado do que já se encontrava outrora.
- O teu cérebro congelou com tantas teorias, foi?
Mas Nathan nem respondeu à sua provocação. Permanecia a olhar para trás de si, agora de boca entreaberta e a balbuciar abruptamente.
Perplexo com aquela atitude, Jaden virou-se para trás a fim de perceber para onde estaria o colega a olhar, mas apenas viu mesas vazias. Apenas num sofá encostado a uma esquina encontrava-se um rapaz de cabelos brilhantes e louros, e com um casaco extremamente comprido. Foi então que finalmente reparou que Nathan estava a olhar para o novo aluno. Este encontrava-se petrificado, com as mãos em cima das coxas, e com o seu olhar que parecia nem ter cor a apontar fixamente para Jaden. O rapaz nem parecia incomodar-se com o facto de duas pessoas terem reparado nele e o olharem com desdém, apenas permanecia imóvel no sofá, a fitar Jaden com uma expressão apática.

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- Aquele… rapaz… - gaguejou Nathan – está… está… a pregar-te um bruxedo Jaden!
- O quê?
- Tu sabes… daqueles vudu… pagão… tu sabes!
- Não digas parvoíces – virou-se para a frente e fechou o livro de Análise Matemática.
- Vais para onde? – perguntou Nathan, confuso.
- Não sei… mas aqui é que não fico.
- Espera, eu vou também! Não quero ficar aqui sozinho com este lunático! Ainda fico amaldiçoado para o resto da minha pobre existência!

9º Capítulo - Médico ao Domicílio


Daisy nunca mais comentou nada sobre aquela notícia aterradora nos dias que se seguiram, até porque os detalhes que os noticiários davam já eram de conhecimento de todos os habitantes da cidade. Uma mutilação geral no corpo de um jovem de 16 anos. Jaden não conseguia arranjar uma explicação plausível, para além daquilo se tratar de um homicídio bizarro.
A temporada de exames começava a aproximar-se rapidamente, dando-lhe uma sensação de preocupação e desconforto um tanto ou quanto elevada. Ainda não tinha estudado rigorosamente nada, e cada dia parecia apenas uns minutos que passavam num ápice. Sempre que chegava a casa, o tempo parecia que voava, e quando dava por si já eram horas de jantar. Mas na tarde seguinte, o motivo de preocupação era ainda maior.
- Desculpem, podem repetir isso, se faz favor?



- O teu médico vem aqui a casa para te dar uma vista de olhos na marca – declarou o pai, com um ar eloquente de quem dá um sermão – Não te preocupes! É apenas uma consulta de rotina. Já passou imenso tempo desde a última visita ao dermatologista, e essa marca deve estar debaixo de olho constantemente!
- ‘Tá bem! Eu sei disso! Mas tinha de ser hoje? É que aproximam-se os exames lá da universidade e…
- Eu acredito que irás arranjar uma solução pacífica para esse pequeno dilema, filho! – exclamou a mãe, olhando-o com um misto de ternura e repreensão.
- OK! Pronto… eu vou lá para cima, ver se estudo alguma coisa.
Jaden subiu as escadas num passo acelerado, sentindo uma ponta de revolta dentro de si. O facto de os seus pais marcarem consultas sem o avisarem fazia sentir-se como uma criança de 12 anos que não sabe fazer nada sozinha. Bateu com a porta do quarto e sentou-se na cama.



Arregaçou a manga da sua camisola e vislumbrou a mácula durante alguns instantes. A espiral que se assemelhava a uma cicatriz queloide parecia estar mais avermelhada, e a mancha parecia estar a adquirir um tom arroxeado. «Talvez seja do frio», pensou ele.



- Jaden? Jaden!
Ouviu-se um escancarar da porta, e um suspiro de repreensão. Jaden tinha adormecido na cama, com um livro em cima do rosto.
- Francamente, Jey! Compõe-te! – exclamou a mãe, com a mão na cintura – O médico já chegou!
- Até parece que me vou encontrar com o primeiro-ministro! - ironizou Jaden, bocejando.
Vestiu outra camisola e desceu as escadas. O médico encontrava-se sentado no sofá de pescoço empertigado a olhar em redor com uma expressão de análise. Ostentava uns óculos extremamente grandes e uma roupa casual. Quem olhasse para ele não diria que se tratava de um doutor.
Jaden sentou-se no sofá em frente com uma expressão aborrecida.
- Pedimos desculpa, senhor doutor, por o termos chamado cá a casa, mas não temos tido muito tempo para marcar consultas no seu consultório!
A sua mãe encontrava-se ligeiramente nervosa por receber o médico em sua casa. Esboçava um sorriso que mais parecia de nervosismo do que de felicidade.
- De maneira alguma! Eu também dou consultas ao domicílio, e confesso que o caso do seu filho é algo que deve ser tratado a portas fechadas. A marca que ele tem ainda é um caso que está em constante análise.
O dermatologista falava como se Jaden não estivesse presente naquela sala, pois só se dirigia à sua mãe, e de quando em vez ao pai. Apenas se dirigiu ao rapaz quando abriu a sua mala e disse, com um tom de voz rigoroso:
- Ora vamos lá ver como está a marca…
- Ele tem-se desleixado muito, senhor doutor! Não tem posto qualquer proteção nessa zona!
- Isso é mentira mãe! – exclamou Jaden, impaciente, com o braço estendido em cima da perna, deixando o médico analisar a marca.



Este pareceu nem ter ouvido o que a mãe lhe tinha dito, e apenas se concentrava no braço esquerdo de Jaden, com os olhos extremamente esbugalhados.
- É melhor teres cuidado, rapaz… a marca está mais vermelha!



Ao ouvir aquelas palavras, a mãe levantou-se rapidamente do sofá e aproximou-se do braço do filho.
- Ma-mais vermelha… doutor?
- Sim. Mas nada que uma pomada e um protetor solar de fator máximo não resolvam. O sinal sempre foi benigno. E sempre será, com toda a certeza! Mas há que ter cuidado! Pode desenvolver algo cancerígeno se não tiveres cuidado, Jaden!
- Eu sei disso… - volveu Jaden friamente, com os olhos entreabertos.



No seu ponto de vista, aquela consulta era perfeitamente dispensável. O médico, durante a consulta, não fizera outra coisa senão relembrá-lo dos cuidados que já lhe eram conhecidos há muito tempo. Não se preocupou sequer em mostrar-se preocupado ou interessado pelo assunto, pelo que a mãe lhe ia dando pequenos pontapés como sinal para ser bem educado para o médico.
- Muito bem, pode baixar a manga.
O doutor receitou uma pomada para colocar três vezes ao dia naquela zona, e de seguida despediu-se e encaminhou-se para a porta, juntamente com a sua mãe. Jaden permaneceu sentado no sofá, pegando no comando e ligando a televisão. Mas quando reparou que a porta nem se tinha chegado a abrir, diminuiu o volume e olhou por cima do ombro, para o hall de entrada. A sua mãe falava com o médico, com o papel da receita médica na mão.
- Tem a certeza que está tudo bem, doutor? Aquela marca não é mesmo grave? É que é tão estranha… tão… invulgar!
- Ouça… é evidente que aquilo não se trata de acne num adolescente. Há que ter cuidado! Porém não é preciso ficar alarmada! Foram feitos vários exames que não acusaram nada de grave! Mas se o seu filho continuar com estes descuidos… bem, só o tempo revelará as consequências! Tente mantê-lo debaixo de olho no que se trata de apanhar sol naquele núcleo ou algo que exponha a marca! É imperativo que se tenham cuidados redobrados!
E dito isto, abriu gentilmente a porta e saiu de casa. Jaden aumentou rapidamente o volume da televisão para a sua mãe não desconfiar que estava a perscrutar a conversa, e enterrou-se no sofá, agarrando uma almofada e colocando-a atrás da nuca.

8º Capítulo - O Homicídio


A manhã começou fresca, e o sol pálido que espreitava por entre as nuvens viera aumentar as temperaturas que se mostravam tendencialmente baixas, facto que dava nitidamente a entender que o calor tinha cessado finalmente, dando lugar a um sol de outono sombrio e ígneo.
Jaden chegou à universidade extremamente arrependido por não ter trazido um casaco. A tremer de frio, encenou uma corridinha até ao edifício, apanhando desprevenida uma rapariga mulata que deixou consequentemente cair ao chão um dossier e o jornal diário. Após um pedido de desculpas bastante conturbado, Jaden viu-se novamente obrigado a parar, quando um grupo de professores passou por si. Um deles, um homem calvo e antipático, agitava com veemência um jornal. Assim que Jaden ultrapassou as enormes portas de entrada respirou de alívio. Lentamente, a sua pele voltava ao normal e a sua cara adquiria de novo a tez rosada e vigorosa. Perturbando-lhe o sossego, um bando de raparigas finalistas surgiu, empunhando também alguns jornais. Gesticulavam histericamente entre elas e, em cada um dos seus rostos, via-se uma inquietude que Jaden não se lembrava de notar em dias anteriores. Na sua mente impunha-se uma única questão: Porque raio todos tinham comprado o jornal?
À medida que caminhava pelo corredor da entrada, ia reparando na quantidade crescente de pessoas que empunhavam um jornal. Uns abertos, outros fechados, mas onde toda a gente se concentrava maioritariamente, era na primeira página. Uns sussurravam com amigos denotando uma expressão receosa, outros apenas liam a primeira página com os olhos arregalados e havia pessoas que até faziam tentativas vãs de procurar mais informações dentro do jornal.
No meio daquele mar de gente (e de jornais), Jaden avistou Nathan. Tal como ele, aparentava uma expressão atónita, e não segurava nenhum jornal. Parecia tão confuso como Jaden.
- Sabes porque é que está toda a gente com um jornal na mão?
- Sei lá eu… também gostava de saber… - respondeu Nathan, os seus olhos castanhos a olharem para o teto.



Durante toda a manhã, os jornais foram desaparecendo progressivamente, mas os comentários e os sussurros continuavam a fazer-se ouvir, o que começava a irritar-lhe solenemente.
Enquanto estava a caminho do refeitório para almoçar com Nathan, Jaden avistou, ao longe, o rapaz estranho e de olhar ausente. Estava parado no meio da multidão, estático, com o seu casaco comprido a flutuar e os seus olhos rasgados a apontar para o chão.



- Então? Vamos! – exclamou Nathan, pegando no braço de Jaden, qual criança a puxar os pais para um parque infantil.
Quando finalmente foram atendidos e conseguiram perfurar a multidão que cercava o bar do refeitório, viram Daisy a comer o seu almoço habitualmente leve e sem calorias. Ao lado do seu tabuleiro, encontrava-se um jornal dobrado ao meio, pelo que Jaden revirou os olhos e se sentou abruptamente na cadeira em frente a ela, e perguntou, irritado:
- Também tu?
- Também eu o quê? – indagou Daisy, perplexa com a cólera de Jaden, enquanto limpava a sua boca a um guardanapo.
- Isso! O jornal? Porque é que anda toda a gente com um na mão, hoje?



- Vocês não sabem? – perguntou Daisy, olhando ora para Jaden ora para Nathan, ambos com uma expressão iletrada.
Abriu o jornal e virou-o para os dois rapazes, obrigando estes a empoleirarem-se ligeiramente sobre a mesa. Na primeira página, havia uma imagem a preto e branco de um quintal de um subúrbio, com vedações impostas pela polícia judiciária e com jornalistas a rodearem aquela área. Por cima da imagem, com letras grandes e negras, encontrava-se o título: “HOMICÍDIO EM COAST CITY”.
- Um homicídio? – repetiu Jaden, olhando para Daisy com uma expressão ainda mais incrédula que a que aparentava antes de ler aquela notícia.
- Sim – respondeu Daisy, quase num sussurro. – Dizem que foi bizarro! O corpo foi encontrado completamente mutilado!



- Tipo os filmes de terror? – perguntou Nathan, com os olhos esbugalhados.
- Sim, Nathan… como… nos filmes de terror. A polícia mantém os detalhes reservados, mas o óbvio já nós sabemos: esta morte não foi, de todo, um acidente, ou um suicídio! O estado do corpo era crítico, e segundo as autopsias, o rapaz era muito novo! Tinha 16 anos!



A voz de Daisy tremeu ligeiramente quando disse a idade da vítima daquele homicídio. Era evidente que se mostrava perturbada com aquela notícia. Até Jaden se incomodava com a ideia de ter havido uma morte tão bizarra como aquela na sua própria cidade. Pelo contrário, Nathan permanecia a ler o resto das notícias, com um ar descontraído, a assobiar alegremente.
- O que é que achas disto, Nathan? – perguntou Jaden, reparando na sua descontração.
- Huh? Eu? Bem… é como eu digo, parece mesmo daqueles filmes de terror! – Daisy suspirou ao ouvir Nathan, revirando os olhos – Isto deve ter sido obra de algum assassino de massa! Ou então o rapaz tinha muitos inimigos, e cada um deles deixou-lhe uma marca!
Ouviu-se um riso infantil e agudo por parte de Nathan, enquanto ocultava novamente a cara por detrás das folhas do jornal, deixando ver a primeira página com a foto pouco perceptível e desfocada.

“Homicídio em Coast City”
“Polícia Judiciária mantém reportórios muito reservados”

7º Capítulo - Um Lunático Convicto


Mal entrou pelo grande corredor da entrada, Jaden viu Nathan agarrado a uma pequena garrafa de iogurte líquido. Também reparou na expressão desiludida, e ao mesmo tempo frustrada, que o colega denotava.
- Eles não têm iogurte de morango! Agora tenho de beber de morango e banana! Que paciência que eu tenho de ter, já viste Jaden?!
- Pois… que catástrofe! – exclamou Jaden, sarcasticamente. Mas Nathan pareceu não ter compreendido a ironia, e continuava a falar do seu iogurte líquido, como quem discute o estado de tempo ou as notícias.



A voz imatura de Nathan parecia apenas uma espécie de ruído na mente de Jaden. De tantos assuntos que podiam debater juntos, escolhera um iogurte. Mas rapidamente a expressão frustrada do colega transformou-se numa repreensiva e odiosa. Na verdade, a garrafinha de iogurte já se encontrava esmagada e retorcida nas suas mãos.
- O que foi? – perguntou Jaden, perplexo.
- Acabei de me lembrar que sou alérgico à lactose!
Jaden revirou os olhos e encaminhou-se para a sala onde ia ter a aula seguinte, seguido por Nathan. Pelo caminho conseguiu encontrar Daisy, fazendo-lhe uma expressão de como quem pede “socorro”. A vontade de confraternizar com o colega alérgico à lactose era praticamente, ou mesmo, nula. Talvez porque um assunto tão desinteressante como iogurtes fosse o único tema de conversa que ele tivera com Nathan naquele dia.
No intervalo seguinte, o interior da Universidade parecia mais vazio do que no primeiro intervalo. Os corredores não se encontravam tão barulhentos e tão sufocantes que levassem Jaden a ansiar por ir para o pátio da entrada. Talvez seria uma boa oportunidade de ir para o bar sem ter de apanhar uma daquelas enormes e torturantes filas. Mas ao contrário dos corredores, o refeitório encontrava-se apinhado de alunos, pelo que Jaden caiu em si e reparou que estava na hora de almoço. Por uma fração de segundo deu por si a comparar-se a Nathan.
Ao longe, numa mesa isolada de todos os alunos, conseguiu ver o rapaz que tinha visto no pátio da entrada, com o seu olhar ausente a apontar para o nada, tal e qual como denotava há poucas horas. O seu ar aluado incomodava Jaden de uma maneira inexplicável. Aparentava ter os mesmos 20 anos que eles tinham, mas exibia uma expressão muito mais madura e adulta.
- Pára de olhar para ele! – pediu Jaden, quando finalmente tinham arranjado um lugar para se sentarem.



Nathan olhava para o rapaz sentado em frente deles como se estivesse a vislumbrar um quadro de uma arte abstracta de um museu, o qual não estaria a gostar nada dado a sua expressão.
- Meu, vê se paras, estás a dar muito nas vistas! – volveu Jaden, assim que um grupo de alunos barulhentos ocupou uma mesa ao pé deles.
O rapaz vestia um casaco comprido de um tecido semelhante a veludo. Mais parecia um retalho de algum sofá antigo de uma loja em segunda mão. Ao peito tinha um colar comprido, que fazia lembrar os espanta espíritos dos filmes de terror. Exibia uma expressão friamente inquietada, e estalava os dedos com impaciência. Não havia dúvidas do quão estranho era: Embora tivesse na mão um sumo de laranja, nenhum dos rapazes o tinha visto ainda a bebê-lo.
- Tipo, estou a olhar para ele porque ele está a olhar para ti – protestou Nathan.



- Ele não está a…
Jaden calou-se subitamente. De facto, o estranho aluno novo olhava de soslaio para ele; não havia margem para dúvidas. Embora fosse de esguelha, podia-se perfeitamente testemunhar a descrença que continha o seu olhar. Jaden sentiu-se pouco a vontade e sorveu energicamente o resto do seu sumo. A única coisa que queria era ir-se embora. Não lhe estava a agradar mesmo nada a impiedade presente no seu olhar frio mas ao mesmo tempo apático.



- Afinal não estava a fazer filmes! – praguejou Nathan, com uma expressão triunfante.



- Claro que não… - respondeu Jaden, calmamente, focando-se apenas na porta de saída do refeitório.
Mal chegou a casa, deitou-se no sofá da sala de estar e ligou a televisão, onde estava a ser emitida publicidade de um detergente da loiça. Mais um dia fatigante que tinha passado, e não demorou muito tempo até deixar cair da cabeça na almofada encostada ao braço do sofá, e a adormecer profundamente, ouvindo apenas o início da notícia de abertura do telejornal.

“Um rapaz foi encontrado morto junto dos subúrbios de Coast City…”