38º Capítulo - Os Quatro Dons


Passadas quase duas horas, Jaden notou que a momento do seu encontro na floresta com Anon se aproximava cada vez mais. Olhou para o relógio, embora já soubesse as horas, e fingiu grande choque:
- Céus! Já são estas horas?
- O que é que tem? – perguntou Daisy, confusa.
- Tenho de… ir ter com o meu pai ao trabalho. Fiquei de lhe entregar uma coisa que ele precisa.
- Se quiseres eu vou contigo, depois podemos ir lanchar juntos à Pizzaria!
- Desculpa amor, não dá. Depois tenho de ir ter com a minha mãe, ela quer que eu esteja em casa cedo para a ajudar.
Daisy denotou uma expressão desiludida, mas disfarçou e mostrou-se compreensiva, pelo que Jaden respirou de alívio. Não queria dar demasiadas explicações à namorada, pois mais tarde ou mais cedo ela iria desconfiar.
- Não faz mal… vamos ter mais oportunidades. Vai lá, então.
Depois de dar um beijo rápido à namorada, Jaden saiu da universidade a passo acelerado. Por muito que achasse absurdo continuar a encontrar-se com Anon, algo no seu íntimo o obrigava a ir, como se houvesse uma ínfima vontade, bem no fundo do seu coração, de receber mais explicações. E pelo que soubera, nessa tarde ia ficar a saber ainda mais.
Na floresta estendia-se um nevoeiro gelado que fizera Jaden estremecer. O caminho ficou desvanecido e um vento cortante penetrou na sua roupa.
- Anon? – chamou Jaden.


E nesse momento, por entre a neblina, surgiu Anon, com a mesma roupa que a noite anterior, sem nem mais nem menos camadas.
- Como é que consegues estar vestido assim? Já viste o frio que está? Temos de começar a encontrarmo-nos noutro sítio.
- Frio? Depois habituas-te. O nosso corpo foi feito para se adaptar às circunstâncias… se o disciplinares, deixas de sentir frio.
- Fala por ti… - resmungou Jaden, esfregando os braços freneticamente.
Anon andou em direção a uma árvore e encostou-se a ela, tal e qual como no dia anterior. Cruzou os braços e começou a falar.
- Antes de começarmos queria pedir-te uma coisa, Jaden.
- O que é que vem daí?
- A partir de agora começa a contar-me todas as coisas peculiares que te aconteçam… comportamentos estranhos que tenhas, sensações invulgares… tudo. Ok?
Jaden hesitou durante alguns momentos. Lembrou-se do sonho que tivera nessa noite quase que instantaneamente, e embora achasse completamente absurdo, decidiu contar. Já lá ia o tempo em que guardava tudo para si mesmo.
- Bem… posso começar a contar-te já hoje.
- O que é que se passou…?


- Bem… hoje à noite tive um sonho um pouco esquisito. Provavelmente não deve significar nada mas já que me pediste para te contar tudo… Sonhei que estava em minha casa e de repente aparece-me um homem atrás de mim. Um homem que eu nunca vi na vida…
- Como é que ele era? – perguntou Anon, os seus olhos azuis a mirar Jaden de uma forma que o incomodara imenso.
- Era… velho, magro, tinha uma pele escura e usava roupas muito antigas.
Anon arregalou os olhos e ergueu-se durante alguns segundos, como se tivesse recebido uma notícia chocante.
- Como é que é possível? Ainda é muito cedo para o conheceres… - disse Anon, parecendo mais que estava a falar para si próprio do que para Jaden.
- O que foi?


- Hum? Nada… bem, é melhor não dares importância a isso. Pelo menos para já, estamos entendidos?
- Sim, chefe. – brincou Jaden.
Contudo, Anon nem estremeceu a boca, comprimindo-a num risco quase perfeito, a sua expressão mais severa do que nunca.
- Hoje vou falar-te dos Quatro Dons… - recomeçou, virando-se de costas para Jaden. – Estes quatro Dons foram criados por Aleron Tariqq, que, como já te disse ontem, é o criador das Dunas de Tariqq. No fim de te elucidar o nome e significado de cada poder, dir-te-ei como é que eles foram criados. Ainda não estás preparado para perceber isso.
- Está bem…
- Bem… primeiro vou te explicar o Primeiro Dom, mais conhecido como Zaghan Assyn…
- O quê? – inquiriu Jaden, desnorteado.
- Zaghan Assyn! Na linguagem do meu povo significa: O Olho Calculista do Leopardo. Que, como já deves calcular, é o Dom que eu possuo.
Subitamente, ergueu o seu braço esquerdo e mostrou uma espécie de cicatriz. Assemelhava-se imenso à marca que Jaden detinha no seu antebraço, mas tinha outra forma. Era uma mancha prateada com uma espécie de olho parecido com o de um felino a salientar-se na pele.


- Como já deves ter reparado, não és o único que tem uma marca invulgar no braço. Todos os habitantes das Dunas de Tariqq possuem uma marca assim, dependendo do Dom que fruem. Mas voltando ao primeiro Dom… o Zaghan Assyn consiste na possibilidade de o indivíduo se conseguir transformar instantaneamente num leopardo, com um dobro do tamanho e força de um animal selvagem comum. Alguma dúvida?
- N-não… acho eu…
- Ótimo… passemos ao Terceiro Dom.
- Então e o Segundo? – interrompeu Jaden, confuso.
- Já lá vamos… vamos seguir a ordem…
- Ordem? Bem, não sei se sabes contar, mas acho que o terceiro vem depois do segundo.
O rosto pálido de Anon ficou de um tom escarlate de um momento para o outro. Parecia que ia explodir.
- Vamos lá ver se nos entendemos… uma coisa é a tua cultura… outra coisa é a minha. Eu neste momento estou-te a dar a conhecer a minha cultura, por isso é melhor calares-te. Há uma razão para eu ter saltado do primeiro para o terceiro, basta esperares e eu explico-te!
Jaden não respondeu, sentindo uma pontada de vergonha dentro de si, pelo que Anon continuou.
- O Terceiro Dom é o Tigriz Dayan, ou A Ira do Tigre. Não difere muito do primeiro. Apenas tem a particularidade de o possuidor se conseguir transformar num tigre que, ao contrário do leopardo, não é tão calculista e apenas se preocupa em atacar! O seu símbolo é este… - Anon virou-se para a árvore, e apontou um dedo para o seu tronco.
De repente, como que por magia, uma espécie de cruz esculpiu-se no tronco, acompanhada de um fumo ligeiro, como se tivesse sido queimada apenas naquele núcleo.



- Dúvidas?
- Não…
- Então passemos para o Segundo Dom. Este é dos mais importantes na árvore dos Dons, porque é o que basicamente controlada o resto dos dons.
Anon juntou as duas mãos, e quando as voltou a separar uma chama prateada desabrochou, contorcendo-se convulsivamente.
- Chama-se Flam Braeken, que, traduzindo para a vossa linguagem, significa A Chama Interior. – Continuou. - É muito conhecido, pois o indivíduo fica nutrido de uma força sobrenatural, capaz de suportar até dezenas de toneladas, e até controlar corpos à distância devido a ondas invisíveis de energia que penetram no Sistema Nervoso do alvo que se queira controlar.


- Foi esse Dom que eu usei com o meu colega?! Quando o empurrei quase nem lhe toquei… - concluiu Jaden. Agora tudo fazia sentido… agora começava a acreditar mais em Anon.
- Sim… foi isso mesmo.
- Então mas… como é que esse Dom controla os outros todos?
- Bem… controla mais precisamente o primeiro e o segundo. Para um indivíduo se transformar num animal selvagem, é preciso algo dentro de si que o faça transformar-se… um espírito selvagem… um fogo interior! Mais alguma questão?
Jaden acenou negativamente com a cabeça, prestando atenção ao que Anon lhe ia dizer a seguir. Ainda não conseguia acreditar que o motivo daquele acidente com o seu colega tinha sido o segundo Dom. A sua mente disparara nesse momento, num turbilhão de expeculações, como se estivesse a planear a sua próxima cobaia. Já que conseguia controlar um Dom, então não seria nada difícil controlar os outros, pensou ele.
Anon voltou a virar-se para a árvore, mas não esculpiu nada no seu tronco. Em vez disso, dois riscos surgiram no meio de nevoeiro, como duas pequenas cordas de prata, que se entrelaçaram perfeitamente, como se estivessem a dar um nó.


- Este é o Mital Etnam… O Poder da Mente. É um dos mais raros dentre os Quatro Dons. Consiste na capacidade de ler e controlar a mente de outrem, criando-lhe ilusões e fazendo-o cometer atos que, posteriormente, a vítima nem se recorda. Este símbolo ilustra isso mesmo… a Ligação Neural. Foi o que o Abraxaz, ou Thomas, fez contigo…
Jaden sentiu o seu coração parar nesse momento. Arregalou os olhos, quais duas amêndoas enormes.
- O quê?
- Porque é que achas que te sentias tão irritado com os teus amigos? Ao ponto de sentires vontade de bater no teu amigo cenoura?
- Como é que…?
- Foi o Abraxaz que controlou a tua mente, para que o visses como um refúgio e assim aproximares-te dele, para lhe facilitar o seu trabalho. E tu não te lembras de nada… e se te lembras, até agora pensaste ser algo que viesse dentro de ti mesmo… da tua própria vontade. Correto?
- Meu Deus… agora tudo faz sentido! – exclamou Jaden, com um tom de entusiasmo, porém de indignação, na sua voz. Tudo na sua cabeça encaixava perfeitamente. – Mas… o Abraxaz transformou-se num tigre… isso quer dizer que ele tem o terceiro Dom. Como é que ele pode ter dois Dons em simultâneo?
Anon sorriu jovialmente.
- Já estava à espera que perguntasses isso. O Abraxaz é um dos muitos a possuir mais do que um Dom. Tal como tu, que os possuis a todos, o Abraxaz possui dois deles, disciplinando a sua mente conforme as suas necessidades.
- Eu possuo todos os Dons?!
- Sim… e é isso que te vou falar agora, Jaden… O Traham Suryah.


37º Capítulo – O Ressentimento de Nathan


No dia seguinte, a manhã despertara com uma chuva intensa. A trovoada ruidosa sobressaltou Jaden, que acordou de um salto. O seu quarto estava escuro, apenas pela fresta da sua porta entreaberta penetrava uma luz dourada subtil que presumiu virem da sala. Ainda a cambalear e sonolento, encaminhou-se para a porta do quarto e abriu-a. Incrivelmente, o resto da casa encontrava-se tão ou mais escuro que o seu quarto, mas a luz dourada continuava a fustigar-lhe o rosto. Andou pelo hall de entrada, onde o clarão se intensificava ainda mais, e quando chegou até à porta do quarto dos seus pais, um ruído eclodiu atrás de si. Olhou para trás. Ali, sob o chão de madeira envernizada, encontrava-se um velho, com uma longa barba e com o corpo esguio e magro. A expressão que se esculpia na sua face rugosa transparecia cansaço e ao mesmo tempo tristeza. Jaden deu um pulo e encostou-se à parede, a luz dourada a incidir sobre o velho.
- Olá, Jaden! – cumprimentou o velho, a sua voz delicada e rouca penetrou pelos ouvidos de Jaden de tal forma, que ecoou pelo seu cérebro, fazendo-o abrir os olhos.
Encontrava-se de novo deitado, não se ouvia chuva, e o quarto já não estava escuro e sombrio. Em vez disso, os estores estavam abertos até cima, deixando o sol de inverno inundar o quarto com uma luz amarela, aquecendo-o ligeiramente.
- Bom dia, meu querido! – saudou a sua mãe, dando-lhe um beijo na testa. – Que cara é essa?
- Não… não foi nada. Tive um sonho um pouco estranho. Oh meu Deus! Olha as horas! Tenho de me despachar!
E com isto, vestiu-se rapidamente e encaminhou-se para a cozinha, tirando o pacote de leite do frigorífico e bebendo diretamente.


- Oh Jaden! Eu já te disse para não beberes pelo pacote! – ralhou a mãe, entrando de rompante pela cozinha - Não és o único a beber leite nesta casa sabias?
- Isto já está no fim, mãe! O pai?
- Saiu mais cedo… hoje tinha uma reunião com os acionistas lá da empresa e precisava de estar lá mais cedo. E eu também já estou um pouco atrasada!


Jaden deu um beijo na testa da sua mãe e saiu de casa a correr, montando na sua mota e dirigindo-se para a universidade. O primeiro bloco da manhã passou-se calmamente. Uma vez mais, Jaden não conseguiu avistar Nathan em lado nenhum, o que o levou a pensar que talvez o colega o estivesse a evitar desde o baile de gala. Não seria normal faltar durante tantos dias às aulas. Mas por outro lado, tinha Daisy, que se tornara quase a única razão da sua vontade de ir à universidade. Cada dia que passava sentia-se mais atraído pela sua maneira graciosa e gentil de falar, a sua beleza que parecia aperfeiçoar-se de dia para dia e a sua sensibilidade.
Quando chegou a hora de almoço, Jaden dirigiu-se ao bar. Por uma fração de segundo, deu por si a pensar em Anon, e que a hora do seu encontro com ele se estava a aproximar a olhos vistos, coisa que não lhe agradava nada. Ainda não tivera tempo de digerir toda a informação que lhe tinha sido dada na tarde anterior. Apesar daquilo parecer tão real, ainda dava por si a pensar que aquilo podia não passar de um sonho, e Anon, Abraxaz e aquela noite na floresta podiam nunca ter existido. Mas os seus pensamentos foram logo interrompidos por Daisy.
- Jaden! Aqui! – chamou, amontoando o telemóvel na mala e levantando-se para lhe dar um beijo.
- Olá! Então, não era suposto já estares em casa?
- Era… mas como a Hannah não veio à última aula, resolvi ficar aqui á tua espera.


Jaden sorriu, verdadeiramente satisfeito por Daisy ter ficado à sua espera. O frio que se começava a fazer sentir enregelou-lhe a cara, tornando-a flácida e áspera.
- Não era preciso ficares à espera, não tenho medo de ir para casa sozinho – disse Jaden, fazendo uma careta pela sua piada sem graça.
Daisy soltou uma gargalhada, ao mesmo tempo que ficava a olhá-lo nos seus olhos azuis, acariciando-lhe o rosto. Ficava bonita a rir-se; as suas bochechas subitamente vermelhas como um pimentão a contrastar com o cabelo loiro. Jaden começou também a rir-se. De repente, pareciam duas crianças a rirem-se desalmadamente.
- Essa foi boa! – comentou Daisy, ainda a rir-se.
- Juro que não sei como te riste daquilo! – exclamou Jaden – Geralmente, quando eu dizia piadas secas, fulminavas-me com o olhar!
- Acho que o meu amor por ti fez com que as tuas piadas secas tivessem graça…
Jaden observou os seus lindos olhos azuis. Tinham um brilho anormal, que lhe fazia lembrar uma piscina de água cristalina e fresca. Sem dar por isso, perdeu-se no seu olhar. No segundo seguinte, sentiu o perfume doce de Daisy intensificar-se à medida que ela se aproximava.


A sua boca tocou a dela. Encaixaram-se na perfeição como duas peças de puzzle. Já não importava mais nada. Só queriam continuar. O sentimento tomou conta de ambos, os corpos a envolverem-se cada vez mais numa luta contínua. As mãos acariciavam a cara, o cabelo, o corpo… a paixão envolvia-os num círculo que não queriam ver quebrado.



Os lábios separaram-se lentamente, ambos abriram os olhos e sorriram. Jaden coçou a testa com uma peculiar voracidade. Já Daisy ajeitou o cabelo e a roupa, com um sorriso resplandecente. De repente, esta fez desaparecer o sorriso da sua cara tão rápido como ele tinha surgido. Jaden olhou para onde a rapariga olhava, confuso com a súbita mudança de expressão dela.
A uns escassos metros deles, estava Nathan. O cabelo ruivo estava bastante despenteado, mas não era isso o que mais chamava a atenção. O colega tinha uma expressão vazia, desiludida, como se tivesse acabado de ser traído pelos seus melhores amigos.


Talvez era exactamente isso que estava a acontecer, pensou Jaden. Nathan olhou, ora para Jaden, ora para Daisy e, de seguida, num passo bastante acelerado, começou a andar.
- Vou atrás dele – anunciou Jaden.
- Não! – negou-lhe Daisy, puxando-lhe firmemente o braço – Sabes como ele é infantil e exagerado. Deixa-o que o amuo já lhe passa.
Jaden olhou para o local onde há poucos segundos estivera Nathan. Apesar de saber que Daisy tinha razão, não deixava de ficar preocupado. Nathan era um rapaz descontraído, raramente ficava triste ou preocupado. O que quer que tivesse sido que o deixara naquele estado tinha que ser mesmo grave.
- Esquece-o, Jaden. Já é altura de ele crescer e deixar de ser a criança que é. Estou saturada dos amuos ridículos dele! – murmurou Daisy, desdenhosamente – Podemos ou não aproveitar este tempo só para nós?

36º Capítulo – Uma Tarefa por Cumprir



O Palácio de Melih Kibar, situado num penhasco sobranceiro ao mar inconstante movido pelas chuvas torrenciais que assolavam toda a cidade, as suas grandes torres a rasgar o céu negro como o breu, ficava apenas a poucos metros de distância do homem que se arrastava pela terra molhada e pela pedra áspera e cortante que lhe abria golpes nos braços e no seu peito que arfava convulsivamente. Os seus olhos, outrora vermelhos vivos, encontravam-se apagados e mais foscos do que nunca. O seu cabelo descomposto e a sua roupa rasgada faziam com que parecesse nada mais do que um sem-abrigo. A chuva forte fustigava-lhe o rosto sujo de lama, e os relâmpagos constantes iluminavam intermitentemente o seu corpo débil e vulnerável.
- Código de segurança… - ordenou um dos guardas que vigiava o portão da frente do palácio, com a sua voz autoritária.
- Você faz ideia de quem eu sou? – vociferou o homem, ainda a rastejar pelo chão, mirando o guarda com o seu olhar intimidador, ainda que apagado.
O porteiro sobressaltou-se, olhando para o corpo que praticamente se estendia aos seus pés.
- Abraxaz? Depressa, abre o portão! – e outro guarda correu desajeitadamente para o portão colossal de cobre, que não demorou muito tempo até revolver as suas grades e transformar-se num arco autêntico. – A Princesa Radiah não vai gostar nada disto…
- O problema é meu, seu imbecil! Deixa-me passar!
E dito isto, levantou-se repentinamente no chão e cambaleou até ao interior do palácio, rumo ao salão do trono. Neste, a escuridão era quase igual à do céu tempestuoso que cobria todo o reino. Virada para um candeeiro que brotava uma chama imensa que iluminava quase toda a sala, encontrava-se Radiah, os seus cabelos negros e longos, com os reflexos vermelhos tremeluzentes a ondularem da raiz até às pontas, como serpentes.


Virou-se para trás lentamente, e quando encarou Abraxaz, o seu estado era pior do que o dos seus servos, soltou uma gargalhada de escárnio que assustou a maioria dos presentes.
- Espero que me tragas boas notícias, Abraxaz… para voltares tão cedo.
- Na verdade…
- Diz-me… diz-me, seu grande cobarde… diz-me, por favor, que o Traham Suryah está lá fora, neste momento, à espera de ser degolado pela minha própria adaga!
- As notícias não são assim tão boas…
- ENTÃO COMO! COMO É QUE TE ATREVES A VOLTAR AQUI, QUANDO EU TE DISSE CLARAMENTE QUE SÓ VOLTAVAS A COLOCAR AQUI OS TEUS PÉS QUANDO O TIVESSES!
A sua voz aguda, porém penetrante, ressoou por todo o salão, as chamas dos candeeiros a perderem a sua força ígnea, e os servos a limparem mais avidamente o chão.
- Ele estava à minha mercê! – tentou Abraxaz desculpar-se, os seus olhos desvanecidos a olhar fixamente para o chão de mármore preto.
- És tal e qual a sonsa da minha irmã! Um fraco!


- O Anon chegou no preciso momento em que eu estava prestes a matá-lo… e aí travámos uma batalha quase até à morte… como podes ver o meu… estado…
- Devias ter morrido! Devias ter morrido em vez de te ajoelhares perante mim a arranjar desculpa para o teu erro! Cobarde… nem um miúdo como aquele Anon conseguiste aniquilar. Tu sabes que se o Traham Suryah souber da Profecia acaba-se tudo! Não sabes, Abraxaz?
Perante o tom de voz impressionantemente assustado de Radiah, Abraxaz levantou-se, agora mais empertigado e com uma expressão mais confiante.
- Estarei a notar medo? – soltou uma gargalhada que nem se percebia ser de triunfo ou receio. – A mulher que já superou todos os obstáculos? Foi graças a teres superados esses obstáculos que estás aí, nesse trono, a governar um reino que te venera! E brevemente um Império inteiro! Nem tudo está perdido, Radiah…
- O que é que sugeres? Um plano? Queres traçar um plano para sair novamente furado? Para isso mais vale matar-te de uma vez…
- O Anon não é estúpido… ele vai perceber que mais tarde ou mais cedo o Traham Suryah vai ter que ser levado para aqui. E quando ele vier para cá, vai ser acolhido pelas Guerreiras de Olyan, quase de certeza. Basta encontrarmos o esconderijo delas, e matá-lo!


Radiah aproximou-se de Abraxaz, o seu olhar vermelho vivo a mirá-lo de alto abaixo. As suas mãos pousaram no seu peito musculado, e os seus lábios tocaram no seu pescoço.
- Então quando ele cá estiver… vais fazer esforços sem precedentes para o encontrar e trazê-lo até mim, para eu acabar com isto de uma vez por todas. Caso contrário… - as suas longas unhas pretas arranharam o seu braço ferido, fazendo Abraxaz soltar um esgar de dor - …sabes as consequências… e seria uma pena, não achas? Matar o meu próprio marido… Quem mais me iria dar aquele… alento que todas as mulheres precisam quando estão em baixo, hum? – e a sua mão voltou a percorrer o seu pescoço, os seus lábios a rasparem nos de Abraxaz. – Seria uma pena desperdiçar-te…


- Não te deixarei ficar mal… - disse Abraxaz, o seu olhar agora mais aceso e vivo.
- Ótimo. Era isso que queria ouvir… o nosso trabalho ainda não está acabado…